Publicado em: 21 de
agosto de 2026
Artigo escrito por
Abimadabe Vieira, pesquisadora/educadora certificada pelo Observatório Nacional
de Segurança Viária e embaixadora do Programa Volvo de Segurança e Educação no
Trânsito.
A conta que o relógio não
consegue esconder.
Se o relógio da nossa
sala funcionasse no ritmo das emergências médicas da Paraíba, seu tique-taque
traria um eco aterrorizante.
A cada 22
minutos, uma pessoa dá entrada gravemente ferida em um hospital de trauma
vítima da violência do trânsito. Quando fechamos o foco sobre o grupo mais
vulnerável, o cenário se torna ainda mais cruel: a cada 25 minutos, um
motociclista se envolve em um sinistro de trânsito e precisa de atendimento
hospitalar.
Não estamos falando de
números frios impressos em boletins oficiais da Secretaria de Estado da Saúde.
Estamos falando de cadeiras vazias à mesa do jantar, de pais e mães que saíram
para trabalhar e voltaram para casa em uma cadeira de rodas, de jovens que
tiveram seus projetos de vida brutalmente interrompidos.
Os dados acumulados
de janeiro a julho de 2026 desenham um cenário que já não pode
ser tratado como algo corriqueiro.
Nos dois maiores
hospitais públicos de referência em trauma da Paraíba — o Hospital de
Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena, em João Pessoa, e o Hospital Dom
Luiz Gonzaga Fernandes, em Campina Grande — foram registrados 13.848
atendimentos por acidentes terrestres em apenas sete meses.
Desse contingente, os
motociclistas representam a parcela mais dolorosa: 11.893 vítimas,
o equivalente a 85,8% de todos os atendimentos por acidentes terrestres
registrados nesses hospitais.
É impossível olhar para
esses números e continuar chamando tudo isso de normal.
Não são números. São
vidas.
Como educadora de
trânsito, preciso insistir em uma mudança que vai além das palavras: precisamos
falar em sinistros de trânsito.
A expressão nos ajuda a
compreender que essas ocorrências não são simplesmente acontecimentos
inevitáveis do cotidiano. Grande parte delas está relacionada a comportamentos,
condições das vias, fiscalização, engenharia, infraestrutura, condições de
trabalho e tantas outras circunstâncias que podem ser prevenidas ou reduzidas.
Por isso, não podemos
aceitar uma narrativa simplista que coloque toda a responsabilidade sobre os
ombros de quem está na ponta mais vulnerável.
É preciso olhar
especialmente para quem trabalha sobre duas rodas.
Quando trabalhar sobre
duas rodas vira uma corrida contra o tempo
Entre os entregadores por
aplicativo, encontramos trabalhadores submetidos diariamente a uma combinação
perigosa: pressão por tempo, jornadas extensas, cansaço, exposição
permanente ao trânsito e necessidade de garantir o sustento da família.
Existe uma sociedade que
deseja receber sua comida, seu medicamento, sua encomenda ou seu produto o mais
rápido possível.
Mas quem paga o preço
dessa velocidade?
Muitas vezes, é o
trabalhador que está sobre a motocicleta.
Não se trata de retirar a
responsabilidade individual de cada condutor. Trata-se de reconhecer que
segurança viária também é uma questão de condições de trabalho,
responsabilidade empresarial, infraestrutura e políticas públicas.
Não podemos exigir
velocidade de quem precisa, antes de tudo, chegar vivo ao destino.
Quando a estatística
ganha nome
No topo dessa pirâmide de
dor estão os óbitos.
Foram 492 vidas
perdidas nas estradas paraibanas no mesmo período.
Isso significa que,
aproximadamente, a cada 10 horas, uma família paraibana recebe a pior
notícia de sua vida.
E nenhuma estatística
consegue traduzir o silêncio que permanece depois que alguém parte.
A frieza dos números
ganha rosto, nome e uma dor imensurável quando lembramos de trabalhadoras
como Amanda Ferreira de Lima, integrante ativa da Associação
de Motogirls e Entregadoras da Paraíba e do Motogirls JP –
Coletivo de Trabalhadoras por Aplicativo de João Pessoa.
Amanda perdeu a vida em
um grave sinistro de trânsito.
Sua morte não pode ser reduzida a mais uma unidade em um gráfico de óbitos.
Amanda representa tantas
mulheres que todos os dias enfrentam a selva do asfalto para garantir o próprio
sustento e o de suas famílias.
Sua ausência permanece
como um grito de socorro por direitos, proteção e respeito à vida de
quem trabalha sobre duas rodas.
As mulheres que trabalham
sobre duas rodas
Dentro desse cenário, as mulheres enfrentam dores que muitas vezes permanecem invisíveis.
Além dos riscos comuns do
trânsito, as motogirls convivem com necessidades específicas que raramente
aparecem nas discussões sobre mobilidade e trabalho.
Cólicas, ciclo menstrual,
necessidade de higiene e a ausência de banheiros públicos adequados fazem parte
de uma realidade que precisa ser reconhecida.
Como pode uma
trabalhadora permanecer horas nas ruas sem um lugar seguro para usar o
banheiro, higienizar-se, beber água ou simplesmente sentar por alguns minutos?
Isso não é luxo.
É dignidade.
E dignidade também é
segurança.
Uma trabalhadora cansada,
desidratada, com dores físicas e sem condições mínimas de descanso está mais
vulnerável. Cuidar dessas condições não significa privilégio. Significa
prevenção.
O custo que não aparece
nos boletins
O sinistro de trânsito
não termina quando a ambulância deixa o local.
Ele pode ser apenas o
começo de um longo efeito dominó.
O jovem que sobrevive a
uma fratura grave ou a um traumatismo cranioencefálico pode enfrentar meses ou
anos de recuperação, limitações físicas e, em alguns casos, sequelas
permanentes.
De uma hora para outra,
quem sustentava a casa pode precisar ser cuidado.
Quem trabalhava pode
deixar de trabalhar.
Quem cuidava dos filhos
pode precisar ser cuidado pelos filhos.
E alguém precisa assumir
esse cuidado.
Frequentemente, são mães,
esposas, maridos, filhos e outros familiares que reorganizam completamente suas
vidas para acompanhar uma pessoa ferida.
O custo emocional de
perder um filho, um companheiro, uma mãe ou um pai não cabe em nenhuma planilha
pública.
O custo de adaptar uma
casa, abandonar um emprego ou assumir permanentemente os cuidados de uma pessoa
com deficiência também não aparece integralmente nos boletins.
O sinistro atinge o
indivíduo, mas suas consequências alcançam toda a família.
Uma década de inércia tem um preço
Se nada for feito e as
médias atuais forem mantidas, as projeções são assustadoras:
- Em 1 ano: mais
de 23.800 pessoas feridas e cerca de 847 mortes.
- Em 10 anos: mais
de 238.500 pessoas feridas, potencialmente sequeladas, além de
aproximadamente 8.470 vidas perdidas.
Não são números para
alimentar o medo.
São números para provocar
responsabilidade.
Porque, por trás de cada
cálculo, existe uma pessoa.
E, por trás de cada
pessoa, existe uma família.
Não basta cobrar
responsabilidade. É preciso oferecer proteção.
Diante de uma realidade
como essa, a resposta não pode ser apenas fiscalização, multa, punição ou
cobrança individual.
Tudo isso tem seu lugar.
Mas precisamos ir além.
As autoridades
governamentais, os órgãos de trânsito, as empresas, as plataformas de entrega e
a sociedade precisam assumir sua parcela de responsabilidade.
Precisamos de infraestrutura
viária segura, engenharia de trânsito que considere quem está sobre duas rodas,
fiscalização eficiente, educação para o trânsito permanente e políticas
públicas voltadas especificamente para trabalhadores motociclistas e
entregadores.
Também precisamos
discutir as condições de trabalho impostas pelas plataformas e a pressão por
tempo que pode estimular comportamentos de risco.
Reduzir a violência no
trânsito não é favor.
É dever do Estado e
compromisso de toda a sociedade.
Uma proposta concreta:
Pontos de Apoio para quem trabalha sobre duas rodas
Não podemos apenas
apontar o problema.
Precisamos apresentar
soluções.
Por isso, defendo a
criação de Pontos de Apoio e Descanso Multiassistenciais para
motociclistas, motoboys, motogirls e entregadores por aplicativo,
especialmente nas principais cidades da Paraíba.
Esses espaços poderiam
ser implantados em locais estratégicos, próximos a grandes polos comerciais,
gastronômicos e de serviços, por meio de parcerias entre o poder público,
municípios, empresas e plataformas de aplicativos.
A proposta é
simples: oferecer condições mínimas para que quem passa o dia inteiro
trabalhando nas ruas possa parar, respirar e cuidar de si.
O que esses espaços
poderiam oferecer?
1. Infraestrutura de
dignidade
Banheiros limpos e
adequados, chuveiros, bebedouros com água potável, micro-ondas para aquecer
refeições, mesas e assentos para descanso e espaços adequados para uma pausa
entre as entregas.
2. Atenção às mulheres
que trabalham sobre duas rodas
Espaço reservado para
higiene, absorventes higiênicos, itens básicos de cuidado pessoal e condições
adequadas para que as motogirls possam atender às suas necessidades durante a
jornada de trabalho.
Porque uma mulher não
deveria precisar escolher entre trabalhar e cuidar da própria higiene.
3. Suporte para a
segurança viária
Pontos de recarga de
celulares, calibradores de pneus e estrutura básica que ajude o trabalhador a
manter seu equipamento em condições adequadas para circular.
4. Descanso também é
prevenção
Uma pausa não deveria ser
vista como perda de tempo.
Descansar é uma medida de
segurança.
Um trabalhador menos
exausto está mais atento. Uma trabalhadora que consegue beber água, usar o
banheiro, alimentar-se e descansar por alguns minutos está em melhores
condições para continuar sua jornada.
Pequenas estruturas podem
produzir grandes resultados.
O trânsito é feito de
pessoas
Precisamos urgentemente
humanizar as estatísticas.
Cada motociclista que cai
no asfalto tem nome, sobrenome, história, família, sonhos e alguém esperando
sua volta para casa.
Cada capacete esconde um
rosto.
Cada entrega tem uma
pessoa por trás.
Cada minuto economizado
no trânsito jamais pode valer mais do que uma vida.
Passou da hora de
entendermos que segurança viária não é apenas um conjunto de regras,
multas e placas.
Segurança viária é um
pacto coletivo de preservação da vida.
E esse pacto precisa
incluir também aqueles que passam horas sobre duas rodas trabalhando para
movimentar nossas cidades.
Não espere que o
tique-taque dos próximos 22 minutos escolha a sua família para
que você comece a olhar o trânsito de outra maneira.
Desacelerar é
responsabilidade.
Cuidar é
responsabilidade.
Respeitar é
responsabilidade.
E voltar para casa vivo
deveria ser o direito de todos.
Porque, no
trânsito, nenhuma entrega é mais urgente do que a vida de quem está
fazendo a entrega.
Chega de mortes
silenciosas.
A Paraíba precisa de
políticas públicas para quem trabalha sobre duas rodas — e precisa delas agora.