segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A Epidemia Invisível sobre Duas Rodas: o Sangramento Diário que Ceifa o Futuro da Paraíba

 

 Por Abimadabe Vieira

Publicado em: 21 de agosto de 2026

Artigo escrito por Abimadabe Vieira, pesquisadora/educadora certificada pelo Observatório Nacional de Segurança Viária e embaixadora do Programa Volvo de Segurança e Educação no Trânsito.

A conta que o relógio não consegue esconder.

Se o relógio da nossa sala funcionasse no ritmo das emergências médicas da Paraíba, seu tique-taque traria um eco aterrorizante.

A cada 22 minutos, uma pessoa dá entrada gravemente ferida em um hospital de trauma vítima da violência do trânsito. Quando fechamos o foco sobre o grupo mais vulnerável, o cenário se torna ainda mais cruel: a cada 25 minutos, um motociclista se envolve em um sinistro de trânsito e precisa de atendimento hospitalar.

Não estamos falando de números frios impressos em boletins oficiais da Secretaria de Estado da Saúde. Estamos falando de cadeiras vazias à mesa do jantar, de pais e mães que saíram para trabalhar e voltaram para casa em uma cadeira de rodas, de jovens que tiveram seus projetos de vida brutalmente interrompidos.

Os dados acumulados de janeiro a julho de 2026 desenham um cenário que já não pode ser tratado como algo corriqueiro.

Nos dois maiores hospitais públicos de referência em trauma da Paraíba — o Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena, em João Pessoa, e o Hospital Dom Luiz Gonzaga Fernandes, em Campina Grande — foram registrados 13.848 atendimentos por acidentes terrestres em apenas sete meses.

Desse contingente, os motociclistas representam a parcela mais dolorosa: 11.893 vítimas, o equivalente a 85,8% de todos os atendimentos por acidentes terrestres registrados nesses hospitais.

É impossível olhar para esses números e continuar chamando tudo isso de normal.

Não são números. São vidas.

Como educadora de trânsito, preciso insistir em uma mudança que vai além das palavras: precisamos falar em sinistros de trânsito.

A expressão nos ajuda a compreender que essas ocorrências não são simplesmente acontecimentos inevitáveis do cotidiano. Grande parte delas está relacionada a comportamentos, condições das vias, fiscalização, engenharia, infraestrutura, condições de trabalho e tantas outras circunstâncias que podem ser prevenidas ou reduzidas.

Por isso, não podemos aceitar uma narrativa simplista que coloque toda a responsabilidade sobre os ombros de quem está na ponta mais vulnerável.

É preciso olhar especialmente para quem trabalha sobre duas rodas.

Quando trabalhar sobre duas rodas vira uma corrida contra o tempo

Entre os entregadores por aplicativo, encontramos trabalhadores submetidos diariamente a uma combinação perigosa: pressão por tempo, jornadas extensas, cansaço, exposição permanente ao trânsito e necessidade de garantir o sustento da família.

Existe uma sociedade que deseja receber sua comida, seu medicamento, sua encomenda ou seu produto o mais rápido possível.

Mas quem paga o preço dessa velocidade?

Muitas vezes, é o trabalhador que está sobre a motocicleta.

Não se trata de retirar a responsabilidade individual de cada condutor. Trata-se de reconhecer que segurança viária também é uma questão de condições de trabalho, responsabilidade empresarial, infraestrutura e políticas públicas.

Não podemos exigir velocidade de quem precisa, antes de tudo, chegar vivo ao destino.

Quando a estatística ganha nome

No topo dessa pirâmide de dor estão os óbitos.

Foram 492 vidas perdidas nas estradas paraibanas no mesmo período.

Isso significa que, aproximadamente, a cada 10 horas, uma família paraibana recebe a pior notícia de sua vida.

E nenhuma estatística consegue traduzir o silêncio que permanece depois que alguém parte.

A frieza dos números ganha rosto, nome e uma dor imensurável quando lembramos de trabalhadoras como Amanda Ferreira de Lima, integrante ativa da Associação de Motogirls e Entregadoras da Paraíba e do Motogirls JP – Coletivo de Trabalhadoras por Aplicativo de João Pessoa.

Amanda perdeu a vida em um grave sinistro de trânsito.


Sua morte não pode ser reduzida a mais uma unidade em um gráfico de óbitos.

Amanda representa tantas mulheres que todos os dias enfrentam a selva do asfalto para garantir o próprio sustento e o de suas famílias.

Sua ausência permanece como um grito de socorro por direitos, proteção e respeito à vida de quem trabalha sobre duas rodas.

As mulheres que trabalham sobre duas rodas

Dentro desse cenário, as mulheres enfrentam dores que muitas vezes permanecem invisíveis.

Além dos riscos comuns do trânsito, as motogirls convivem com necessidades específicas que raramente aparecem nas discussões sobre mobilidade e trabalho.

Cólicas, ciclo menstrual, necessidade de higiene e a ausência de banheiros públicos adequados fazem parte de uma realidade que precisa ser reconhecida.

Como pode uma trabalhadora permanecer horas nas ruas sem um lugar seguro para usar o banheiro, higienizar-se, beber água ou simplesmente sentar por alguns minutos?

Isso não é luxo.

É dignidade.

E dignidade também é segurança.

Uma trabalhadora cansada, desidratada, com dores físicas e sem condições mínimas de descanso está mais vulnerável. Cuidar dessas condições não significa privilégio. Significa prevenção.

O custo que não aparece nos boletins

O sinistro de trânsito não termina quando a ambulância deixa o local.

Ele pode ser apenas o começo de um longo efeito dominó.

O jovem que sobrevive a uma fratura grave ou a um traumatismo cranioencefálico pode enfrentar meses ou anos de recuperação, limitações físicas e, em alguns casos, sequelas permanentes.

De uma hora para outra, quem sustentava a casa pode precisar ser cuidado.

Quem trabalhava pode deixar de trabalhar.

Quem cuidava dos filhos pode precisar ser cuidado pelos filhos.

E alguém precisa assumir esse cuidado.

Frequentemente, são mães, esposas, maridos, filhos e outros familiares que reorganizam completamente suas vidas para acompanhar uma pessoa ferida.

O custo emocional de perder um filho, um companheiro, uma mãe ou um pai não cabe em nenhuma planilha pública.

O custo de adaptar uma casa, abandonar um emprego ou assumir permanentemente os cuidados de uma pessoa com deficiência também não aparece integralmente nos boletins.

O sinistro atinge o indivíduo, mas suas consequências alcançam toda a família.


Uma década de inércia tem um preço

Se nada for feito e as médias atuais forem mantidas, as projeções são assustadoras:

  • Em 1 ano: mais de 23.800 pessoas feridas e cerca de 847 mortes.
  • Em 10 anos: mais de 238.500 pessoas feridas, potencialmente sequeladas, além de aproximadamente 8.470 vidas perdidas.

Não são números para alimentar o medo.

São números para provocar responsabilidade.

Porque, por trás de cada cálculo, existe uma pessoa.

E, por trás de cada pessoa, existe uma família.

Não basta cobrar responsabilidade. É preciso oferecer proteção.

Diante de uma realidade como essa, a resposta não pode ser apenas fiscalização, multa, punição ou cobrança individual.

Tudo isso tem seu lugar.

Mas precisamos ir além.

As autoridades governamentais, os órgãos de trânsito, as empresas, as plataformas de entrega e a sociedade precisam assumir sua parcela de responsabilidade.

Precisamos de infraestrutura viária segura, engenharia de trânsito que considere quem está sobre duas rodas, fiscalização eficiente, educação para o trânsito permanente e políticas públicas voltadas especificamente para trabalhadores motociclistas e entregadores.

Também precisamos discutir as condições de trabalho impostas pelas plataformas e a pressão por tempo que pode estimular comportamentos de risco.

Reduzir a violência no trânsito não é favor.

É dever do Estado e compromisso de toda a sociedade.

Uma proposta concreta: Pontos de Apoio para quem trabalha sobre duas rodas

Não podemos apenas apontar o problema.

Precisamos apresentar soluções.

Por isso, defendo a criação de Pontos de Apoio e Descanso Multiassistenciais para motociclistas, motoboys, motogirls e entregadores por aplicativo, especialmente nas principais cidades da Paraíba.

Esses espaços poderiam ser implantados em locais estratégicos, próximos a grandes polos comerciais, gastronômicos e de serviços, por meio de parcerias entre o poder público, municípios, empresas e plataformas de aplicativos.

A proposta é simples: oferecer condições mínimas para que quem passa o dia inteiro trabalhando nas ruas possa parar, respirar e cuidar de si.

O que esses espaços poderiam oferecer?

1. Infraestrutura de dignidade

Banheiros limpos e adequados, chuveiros, bebedouros com água potável, micro-ondas para aquecer refeições, mesas e assentos para descanso e espaços adequados para uma pausa entre as entregas.

2. Atenção às mulheres que trabalham sobre duas rodas

Espaço reservado para higiene, absorventes higiênicos, itens básicos de cuidado pessoal e condições adequadas para que as motogirls possam atender às suas necessidades durante a jornada de trabalho.

Porque uma mulher não deveria precisar escolher entre trabalhar e cuidar da própria higiene.

3. Suporte para a segurança viária

Pontos de recarga de celulares, calibradores de pneus e estrutura básica que ajude o trabalhador a manter seu equipamento em condições adequadas para circular.

4. Descanso também é prevenção

Uma pausa não deveria ser vista como perda de tempo.

Descansar é uma medida de segurança.

Um trabalhador menos exausto está mais atento. Uma trabalhadora que consegue beber água, usar o banheiro, alimentar-se e descansar por alguns minutos está em melhores condições para continuar sua jornada.

Pequenas estruturas podem produzir grandes resultados.

O trânsito é feito de pessoas

Precisamos urgentemente humanizar as estatísticas.

Cada motociclista que cai no asfalto tem nome, sobrenome, história, família, sonhos e alguém esperando sua volta para casa.

Cada capacete esconde um rosto.

Cada entrega tem uma pessoa por trás.

Cada minuto economizado no trânsito jamais pode valer mais do que uma vida.

Passou da hora de entendermos que segurança viária não é apenas um conjunto de regras, multas e placas.

Segurança viária é um pacto coletivo de preservação da vida.

E esse pacto precisa incluir também aqueles que passam horas sobre duas rodas trabalhando para movimentar nossas cidades.

Não espere que o tique-taque dos próximos 22 minutos escolha a sua família para que você comece a olhar o trânsito de outra maneira.

Desacelerar é responsabilidade.

Cuidar é responsabilidade.

Respeitar é responsabilidade.

E voltar para casa vivo deveria ser o direito de todos.

Porque, no trânsito, nenhuma entrega é mais urgente do que a vida de quem está fazendo a entrega.

Chega de mortes silenciosas.

A Paraíba precisa de políticas públicas para quem trabalha sobre duas rodas — e precisa delas agora.

 

 

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